Todos chamam Serena de rude, grosseira, filhadeumaputa. Caminhando, ela gostava de parecer um filhote-de-cruz-credo, torta e desfeita de beleza, um cabra-macho nascido em algum lugar que ninguém sabe onde fica no mapa. Serena mantém os cabelos duros, os dentes amarelados e uma expressão quase amedrontadora. Ninguém sabe onde Serena mora, mas reconhecem que ela não parece ser daqui. E ela faz de um tudo para não ser.
Foi sua mãe que escolhera o nome: Serena. E, esse era um dos principais motivos que a faziam odiar sua mãe, por mais que soubesse das boas intenções dela. Sua mãe não havia pensado que Serena talvez não fosse a menina recatada que quase toda a mãe deseja ter. Desde bem pequena, Serena negou os destinos da palma de sua mão e do seu nome. Migrou: de sua terra natal e de si. Serena não queria ser serena, doce, delicada; quer ser severa.
Por volta das 4:33, todo domingo, ela acompanha os jogos de futebol na TV e anota os nomes: Leonilson, Admilson, Edilson, Glanderson, Anderson, Cleverson, Jailson, Josenilson... Tinha uma coleção deles. Impressiona-a a diversidade e, ainda mais, a criatividade daquelas mães: Walisson, Dickson, Jackson, Levilson, Harrysson, Janderson, Roberson, Peterson, Gleidson, Denisson... Se pudesse ter escolhido seu próprio nome, seria um desses. Nomes que, segundo Serena, são de boa entonação, exigem respeito e justificariam sua fama de mulher durona.
A partir da data de chegada à capital e da necessidade de sempre informar as horas, o dia de Serena se resume em 4 minutos e trinta e três segundos: 4’33’’ para se vestir; 4’33’’ para aquecer o almoço; 4’33’’ para chegar à parada de ônibus; 4’33’’ para ouvir a previsão do tempo; e assim por diante. Embora parecesse tão metódica em seus afazeres diários, Serena busca uma relação com o tempo que não seja o da espera. Saber que só lhe restam 4 minutos e 33 segundos para fazer, ir, ter, voltar tornaram-na esperta, audaciosa, malandra.
Serena topa qualquer empreitada, mas o que mais lhe agrada é seu ofício como motoboy. Quem diria que aquela sertaneja com casamento arranjado antes mesmo de vir a esse mundo do deus e do diabo, teria função mais urbana do que essa. Ainda se lembra de quando seu chefe – Harrison não era Ford ou George, era Souza mesmo – disse que ela estava contratada. Serena é única entre os homens. O uniforme preto, reto e emborrachado disfarçam as curvas e evitam as piadas no trânsito. Mesmo que não se importasse muito, ser chamada de gostosa reencontra um passado de mulher bem-feita, que nunca desejou possuir.
Não demorou para que a força da vida impetuosa e ditadora se fizesse mais forte, e Serena viu-se surpresa. Estava grávida. Tinha agora uma responsabilidade que não lhe pertencia, a ingrata lição de ensinar alguém a começar a viver. E como sua mãe, quis que o futuro da criança magra e desprotegida fosse bom. Olhando para os olhos daquela menina e rezando que ela fosse feliz, Serena só pensou em um nome: Aurora.
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