sábado, 12 de março de 2011

Improviso 1


Salvador Dali

Quando digo que escrevo por incapacidade de ser alguém que eu não sou, é puro fingimento. A todo momento, me vejo sendo alguém que não sou porque para além de mim há uma incapacidade imensa de ser. Se eu disser que escrevo por desejo de concretude, estarei mentindo. E também não posso dizer que eu minto sempre. Não sei o que é verdade para poder mentir. O que faço é imaginar as coisas e inventar algumas tramas para elas.
Talvez quem me leia ache que eu sofro de uma dor constante e ameaçadora; talvez sinta que em mim há um ser dolorido perenemente. Não nego tais interpretações, mas eu não sei como me interpretar. Às vezes tento, mas de repente me vejo completamente perdida nas tantas palavras que escrevo por todos os cantos. Além do mais, mesmo nas tantas bobagens já escritas por mim, nunca vi esse traço de uma busca por identidade.
Certa vez tive uma impressão forte que escrevia para encontrar os outros, mas hoje não sinto o mesmo. Temo em dizer que escrevo também para me desmentir. Querem saber mais? Não tenho conseguido. Vejo-me muitas vezes condenada à incerteza. Por mais que eu trace planos futuros, minha concepção de tudo muda constantemente. Lembro-me de quando as coisas eram certas em mim. Talvez seja minha salvação não enxergar mais dessa forma.
Já fui daqueles escritores de fim de semana: escrevem por diversão ou sociabilidade. Já fui também daqueles que escrevem crônicas engraçadinhas e sarcásticas. Durou pouco, ainda bem, o suficiente para eu saber o que não poderia mais escrever daquela maneira e me afastar desses grupos literários charlatões.
Mas, como eu estava dizendo, escrevo no desejo de libertação. Estranho como a palavra liberdade sempre me pareceu um enigma, enquanto libertação me é muito mais próxima. O estado de um ser livre que almejo é aquele que pode escrever, pois, por diversas razões, nem sempre se pode escrever. Me refiro ao escrever de fato, não articular palavras, organizá-las em texto e publicá-las em forma de livro. Escrever é como ter uma vida viva. Eu, por exemplo, quando me pretendo escrever, poucas vezes sinto-me escrevendo. É por isso que hoje posso dizer que escrevo improvisando. Ao iniciar um texto qualquer nunca sei o que quero ou devo ou posso escrever. O texto vai se configurando na medida em que cada palavra é lançada. São as palavras e algo invisível que me sussurram o que se vai escrever. Então, não me perguntem sobre o que escrevo aqui, eu realmente não sei.
Li, certa vez, que muitos músicos, alguns bastante pretenciosos, tentavam acompanhar Miles Davis quando ele começava um de seus muitos improvisos, mas nenhum deles conseguia de fato. Paravam nos primeiro minutos, sem saber o que fazer. O improviso é um singular momento de total libertação. E ali só se desconhece os caminhos. Nem Miles Davis sabia exatamente o que fazer, porém era ele que se deixava levar pelos acordes inesperados. O momento é apenas dele. Nesse sentido, gosto de sentir o que sinto agora: um desejo de escrever seguindo apenas o improviso. Improviso que não é somente das palavras, mas de mim também. Um alguém que não quer ser um ser concreto e por completo, mas um ser que quer se desprender – um corpo líquido. Um improviso que surge seja por incapacidade de combinar acordes ou desenhar melodias, seja pelo ímpeto de ser como aquele que corre. Improviso imprevisível.


I'm sorry mother, I'd rather fight than have to lie.

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