
Depois que as pessoas morrem o que resta delas?
Eu acredito apenas nessa vida. Nenhuma antes e nenhuma depois. Única, imperfeita, quebradiça, intensa. Não seria em outro lugar, nem em outro tempo. Nasci muito depois de rompido o ventre de minha mãe. Ou às vezes tenho a ilusão de ter nascido. Isso porque morremos um pouco todos os dias. E os dias tristes reforçam essa sensação. Mas a cada morte ganha-se a chance de viver novamente. Alguns a aceitam outros não. Eu respiro fundo e sigo. Não trocaria essa vida por nenhuma outra mesmo que descesse do céu aquela pomba estúpida e dissesse que viverei no reino dos céus.
Gosto da terra, do ciclo da terra, das coisas da terra. É dela que eu me alimento e ela se nutre de mim. Eu gosto dos cheiros, dos gostos, das texturas sejam eles doces, amargos; suaves ou ásperos. Gosto de pisar nessa terra e ver meu corpo se movimentando nela como se fosse fruto, raiz. E vejo meu corpo crescer e mudar com a virada do tempo. De minha alma não sei, não penso nela. Não sei lidar com o que não vejo.
Em cada momento que vivi, um livro mudou-me por completo. Posso dizer que alguns deles construíram essa que sou hoje. Sem eles não seria essa que escreve, seria outra. Alguns escritores são tão feito tatuagem (Pela manhã, li que tatuagens são transformações na pele através da arte. Na verdade agora me dou por conta que essa frase não tem nada especial, mas na hora eu fiquei pensando em muitas coisas. A palavra transformação me chamou muito a atenção... Como se fossemos insetos que trocam sua pela em determinadas estações. Eu gosto de escrever na pele e ler-me. Depois tomar banho e ver todas as palavras desfazendo-se pela água e o sabão.) em mim que eu os chamo pelo primeiro nome e converso pela rua e os chamo para passear. Dessa que me existe e que disse um pouco no que escrevi acima é no momento que Vanda (mulher mais adorada) nasceu em mim, marcada pela obra de Alberto Caeiro e Vinicius de Moraes.
Hoje, ao acordar, concentrei-me para deixar ver em mim a mulher que ama e sorri e chora e canta por Vinicius de Moraes. Seria mais fácil falar do cronista do que do poeta porque tenho tentado resistir à saudade, ao amor e daquelas coisas que ele diz como ninguém. Isso, pois eu digo sim a tudo o que ele diz. Até sobre a morte...
A morte
A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
por medo da vida.
Bem pior que a morte
Bem pior que a morte
É deixar só o amor
Oh, minha amada
Na hora em que eu me for
Sozinho na treva
Oh, vem comigo
Oh, vem comigo
Lá onde existe a grande paz
O amor em paz
No fundo, me parece, que da morte resta a infinita vontade de viver. E viver, pra mim, é amar – definitivamente. Do amor, Vinicius e Tom reescreveram e musicaram o mito de Orfeu e Eurídice. Que sem palavras eu tenho lido e relido. Mais que livro, mais que poesia, mais que música. É vida. A vida que eu desejo inquieta e visceral compartilhá-la. Como Orfeu e Eurídice; como Vinicius e Tom.
- Hei, quem fala?
- É o Tom do Vinicius.